Muito se escreveu sobre a surpreendente performance dos Grizzlies nestes playoffs. Muito se falou da sua vitória no primeiro jogo das semi-finais do Oeste, frente aos Thunder. E muito se diz sobre aquilo que falhou na equipa de Oklahoma nesse jogo e sobre aquilo que têm de melhorar para vencer a incrivelmente sólida equipa de Zach Randolph e Mike Conley (e poucas vezes no passado se escreveram estas palavras junto ao nomes destes jogadores).
Falou-se do mau jogo de Russell Westbrook e dos muitos turnovers que cometeram, falou-se que Kevin Durant tem de ser mais solicitado e a equipa tem de jogar mais para ele, falou-se da excessiva utilização de jogadas de isolamento e de penetrações (que foram muito bem defendidas pelos Grizzlies) e falou-se do menor rendimento de James Harden. Todas essas são razões que ajudam a explicar o resultado final desse jogo e todas elas são coisas que podem ser corrigidas e melhoradas para os seguintes. Mas, no entanto, há algo que falta a esta equipa de OKC e não pode ser corrigido para o próximo jogo. Nem para o outro a seguir, nem para nenhum jogo desta época.

Na verdade, se olharmos para a história da NBA, é algo que todas (bem, há uma excepção*) as equipas que foram campeãs tinham: um jogador capaz de jogar de costas para o cesto. Um poste ou um power forward capaz de atacar a partir da posição de poste baixo. Uma presença ofensiva interior.
Os Lakers têm Gasol (e Bynum), os Celtics tinham Garnett, os Spurs tinham Duncan, os Pistons tinham Rasheed Wallace, os Lakers do início do século tinham Shaq, os Rockets tinham Olajuwon, os Bulls do 1º threepeat tinham Horace Grant, os Pistons de 89 e 90 tinham Laimbeer e por aí fora. Podemos recuar até aos primórdios da NBA e esse é um elemento comum a praticamente todas as equipas que chegaram ao título.
E as razões para tal são óbvias: quem tem um jogador com estas características (aliado a jogadores exteriores) tem um ataque mais versátil e imprevisível. O ataque pode ser iniciado no exterior ou no interior e o leque de possibilidades e movimentos ofensivos é mais vasto.
E é essa a falta de versatilidade que assola os Thunder. Os seus dois All-Star são jogadores que atacam de frente para o cesto. Ora em penetrações, ora em lançamentos (criados por eles ou após bloqueios para os libertar, mais Durant no segundo caso), mas de frente para o cesto. São dois jogadores exteriores, com movimentos de jogador exterior.
Perkins e Ibaka são dois defensores e ressaltadores excelentes, mas nenhum deles é um jogador ofensivo dotado. E embora Ibaka esteja a desenvolver um bom lançamento de meia distância, também só funciona após assistência. Nenhum deles tem bons movimentos ofensivos a poste baixo ou consegue criar as suas próprias situações ofensivas. O que significa que o ataque dos Thunder começa sempre no exterior.
E essa é uma grande limitação no seu ataque. Seja através de penetrações, pick and rolls ou bloqueios e assistência para um lançador, tudo começa sempre no exterior. Nunca há um passe interior para um jogador que ganhou a posição a poste baixo e para este atacar a partir dessa posição. O que significa que as defesas adversárias nunca têm de fechar sobre um jogador interior. O que significa que as defesas já sabem o que esperar e têm menos alternativas para cobrir. E quanto menos alternativas, mais fácil de defender.
E, como nos mostra a história, isso não leva uma equipa ao título. Por isso, os Thunder não vão ser campeões este ano. E para o serem no futuro vão ter de encontrar essa peça que falta.
*A única equipa que venceu um título (ou três!) sem um jogador bom a poste baixo?
Os Bulls do segundo threepeat, com Dennis Rodman e Luc Longley no interior. Mas essa era uma equipa muito especial. É um caso raríssimo em que os restantes eram tão bons e tão melhores que os outros que ganharam mesmo sem isso. E o triângulo ofensivo de Phil Jackson é um sistema particular, que vive tanto da capacidade de passe do jogador na posição interior como da sua marcação de pontos (e isso Luc Longley fazia bem).