23 temporadas aos comandos duma equipa, 21 delas com um recorde positivo. 1221 vitórias (3º melhor de sempre). 13 temporadas com mais de 50 vitórias. 19 idas aos playoffs. Duas idas às Finais. Como é possível que um treinador com estes números acabe a sua carreira sem um destes?

Infelizmente, é mesmo isso que parece que vai acontecer a Jerry Sloan. Apesar do enorme sucesso das suas equipas, sempre houve alguém que o ultrapassou nas escolhas dos jornalistas americanos quando foi hora de escolher o melhor do ano. Talvez porque ele defendia um sistema colectivo, que prezava o trabalho de equipa e a eficácia acima do espectáculo. Talvez pelo estilo eficiente e menos espectacular que as suas equipas praticavam. Talvez porque ele treinava em Utah, numa cidade longe dos centros mediáticos americanos. Talvez porque ele não tinha um perfil tão mediático como outros. Talvez porque os seus jogadores não tinham um perfil tão mediático. Talvez porque o seu sucesso era dado como garantido, algo tão habitual que os jornalistas já o tomavam como normal.
Seja porque razão for, Jerry Sloan nunca recebeu o prémio. E para um treinador que sempre retirou o máximo rendimento dos jogadores que tinha, que sempre colocou as suas equipas a jogar do melhor basquetebol da liga, que fez muitas vezes verdadeiros milagres com a equipa que tinha, que sempre levou plantéis com menos atleticismo e talento individual que outros na NBA aos primeiros lugares, era um prémio merecido.
Mas ainda não é tarde para corrigir essa injustiça. O prémio é dado pela NBA, mas os votos são de um painel de jornalistas e comentadores norte-americanos. E embora existam critérios que estes seguem para a atribuição do prémio, estes não estão escritos em lado nenhum. São individuais e sempre alvo de subjectividade. Por isso, nada os impede de dar o prémio a Jerry Sloan. Apesar do recorde deste ano (o primeiro critério visível) não ser um argumento que o justifique, pois Sloan já não vai treinar mais, se houvesse alguma noção de justiça entre os jornalistas americanos, davam o prémio a Sloan.
Se quiserem um argumento, que tal este: Sloan a treinador do ano pela capacidade de reconhecer quando era a hora de sair, pela humildade e coragem de admitir que a sua hora tinha chegado pois já não tinha a motivação e a energia para fazer o trabalho com o nível de exigência que ele colocava a si próprio. É preciso um grande treinador para exigir tanto de si próprio que, quando já se sente capaz de trabalhar ao nível que sempre trabalhou, prefere sair. É uma outra forma de ser o melhor para uma equipa.
Os critérios para a eleição estão sempre relacionados com os resultados. Mas o trabalho dum treinador não se esgota aí. Essa é apenas a parte visível. Porque não, desta vez, recompensarem o trabalho fora do campo?
Sim, pode ser apenas uma desculpa para dar o prémio a Jerry Sloan. Mas ele também nunca recebeu o prémio por um sem número de razões. Por isso, desta vez dêem-lhe o prémio pela razão que quiserem. Mas dêem-lho.
Quando anunciou a sua saída, o comissário David Stern afirmou que "Jerry segue em frente tendo-se estabelecido como um dos melhores e mais respeitados treinadores na história da NBA." Pois ainda não é tarde para um dos melhores de sempre receber um prémio devido.